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BRM 1000 KM Audax Floripa – Relato de Marco Antonio de Oliveira Brandão

Postado em 02 novembro 2014 por MARCOOO

         “ Mil é Mil em qualquer lugar ! “

Com essa celebre frase de amigo, darei início ao meu relato da primeira e tão buscada Prova de Audax Randonneurs 1.000 km que participei.

Primeiro, uma breve passagem, para quem não conhece, poder entender um pouco do que para muitas pessoas é uma loucura absurda sem igual a idéia de pedalar tamanha distância. Quem nos conhece, sabe que já rodamos muitos mil quilômetros em cicloviagens pela América do Sul, mas eu lhes asseguro, que uma Prova Randonneurs, é muito diferente e muito mais desafiante. No início eu não entendia isso, e achava um desperdício rodar tantos quilômetros sem a diversão de estar pedalando sem hora marcada. No entanto, a coisa foi ficando séria e desafiadora, até que virou uma meta a ser alcançada. Junto com os amigos do mesmo grupo, decidimos que íamos buscar o título de Randonneurs 1.000 km.

Para as pessoas que sempre me dizem que vão até a Padaria de Bicicleta e já ficam cansadas … ( rsrs ) … entendam que, uma Prova de Audax 1.000 km é composta por ciclistas “ Super Randonneurs “, ou seja, aqueles ciclistas que já foram até a Padaria, já foram até a cidade vizinha, já se aventuraram em um Desafio 80 km, já concluiram um Audax 200 km, um Audax 300 km, um Audax 400 km e depois de terem concluído um Audax 600 km, estavam aptos a participarem da maior Prova da Série, esta que lhes conto.

No Audax 1.000 km, também tem uma Padaria a ser atingida como meta, porém, normalmente ela se encontra em outras cidades a quilômetros de distância.

Esta Prova passa-se em Florianópolis, é o Audax Floripa 1.000 km, mas na verdade apenas a largada e a chegada acontecem na Ilha, porque todo o restante do percurso está compreendido nos estados de Santa Catarina e Paraná. Os participantes tem o prazo de 75 horas para concluir o trajeto que passa por diversas rodovias. Mas Marco, não tem descanso ? Vocês não podem parar ? Podemos sim. Tem descanso, mas por sua conta e risco, porque o tempo continua correndo, ou seja, você tem que definir uma estratégia entre velocidade média e tempo de paradas para não se atrapalhar e colocar tudo a perder. É bom estudar um pouco o percurso, saber onde estão as subidas, porque a última coisa que queremos é nos atrasar em relação ao tempo e ter que correr contra o relógio, aja visto que também temos que estar atentos e preparados para os imprevistos de percurso, como furos de pneu, ou eventuais consertos nas bicicletas, por exemplo.

Como bem sabem ( ou não ), nos Brevets ( Provas ) 400 km e 600 km nos deslocamos de carro de Itanhaém a Florianópolis com um dia de antecedência para pegar os kits na bicicletaria do Milton ( Della Bikes ), onde sempre fomos muitíssimo bem recebidos pelo Milton, Luiz, Rafaella e equipe, e dormimos um pouco ( com baixo custo ) no Hostel do outro Milton, que foi nosso melhor anfitrião e parceiro na Ilha.

Próximos ao local da largada, pudemos assim, sempre estar presentes nos Congressos Técnicos onde eram repassadas sempre as coordenadas sobre o percurso. Essa parte era engraçada, porque sempre prestávamos a maior das atenções e nunca entendíamos “patavinas” nenhuma do que era falado, então fazíamos como a coruja da piada, que foi pintada de verde e vendida como papagaio: “ não fala nada mas preeesta uma ateeenção “ … rsrs

Dia seguinte, acordamos de madrugada para ajeitar as bikes, tempo nublado, passamos na Padaria para tomar um café da manhã reforçado, e logo estávamos no local da largada em 03 amigos de Itanhaém, quase os mesmos que concluíram o Brevet 600 ( Eu, Paulo, Pakato e o Dudú ), só que desta vez sem o Dudú que não pode vir conosco; o Paulo, mesmo muito gripado ainda se arriscou a seguir, mais dois amigos que juntaram-se a nós, o Vinícius ( São Vicente ) e o Edison ( Santo André ), e mais os amigos inseparáveis de Bento Gonçalves, o Cassiano, o Fabi e o Rodrigo.

Depois da vistoria, ainda no local onde seria a largada, encontrávamos e confraternizávamos com muitos outros amigos que havíamos feito nas outras Provas e que ali também estavam ( Luiz Ferreira, Fábio Torrecillas, Patricia Barcelos, Maury Alexandre, Marcelo de São Paulo, entre outras Super feras ). O clima era tenso e ao mesmo tempo alegre. Era a última das dores de barriga, mas a melhor delas … ( rsrs ) … eu olhava ao redor, e via 50 ciclistas dos mais diversos estados. O clima de alegria e amizade característico “dessa espécie” era contagiante, e uma olhada mais apurada me levava a uma certeza: ali todos queriam pedalar 1.000 quilômetros e se prepararam um ano todo para isso. Então, bicicletas revisadas, itens obrigatórios inspecionados e rota repassada, hora de falar menos e pedalar mais, e assim às 8:00 horas da manhã de quinta-feira 16 de Outubro, foi dada a largada; eu disse quinta-feira.

Saímos pela ciclovia em direção a Ponte Hercílio Luz, passamos pelo Della e o Peixoto que tiravam as primeiras fotos da turma toda ainda reunida. O vento lateral na beira-mar entortava os coqueiros, e trazia a promessa de chuva, tomara que não. Estava estreando meu Garmin ( GPS ), ( diga-se de passagem que me apertei nas contas para comprar um GPS de propósito para usar nessa Prova, uma vez que quase perdemos o 400 e o 600 por não saber navegar nas curvas e reviravoltas dos últimos 120 km dentro da Ilha de Floripa, sou muito grato ao “ Trem de Bento Gonçalves “ que navegaram conosco nas outras vezes usando seu GPS).

Logo no primeiro momento de “ perdidos no percurso “, um desvio diferente dos outros percursos foi acusado pelo GPS: “ fora da rota “, e ao virar do revés já no caminho correto, ele continuava indicando o erro, perdi a confiança, e foi então que descobri que não sabia usar aquela “ birosca “ ainda, e lembrei de começar a rezar logo no começo … aos poucos fui me familiarizando com o negócio, mas confesso que ainda não éramos íntimos … havia ainda a dúvida sobre ser correto o percurso inserido no aparelho, uma vez que no último dia que antecedia a prova, os organizadores mudaram mais uma vez o arquivo com o roteiro a ser baixado que estava no site … essas mudanças de última hora não são legais.

Acertado o caminho, e já bem dispersos dos outros ciclistas, era hora de atravessar por dentro da ponte e se preparar para definitivamente deixar a Ilha e navegar com a turma que ficou junta. Cada grupo de ciclistas tem ritmos e filosofias diferentes, tem os que preferem pedalar solitariamente, ou em duplas, ou trios, ou pelotões, nesse caso, sempre pedalamos como nas viagens de bicicleta, em grupo. Normalmente saímos juntos e chegamos juntos, cada um resolve seus problemas e perrengues com auto-suficiência, porém permanecemos em grupo, é nosso jeito de pedalar, é divertido e motivador. Porém, quando um de nós realmente não tem condições de acompanhar, e a pedalada começa a ficar comprometida, aí sim, nos separamos. Raras vezes isso acontece.

Nesse momento atingimos a BR-101 ( ainda vou citar ela muitos vezes ), e estávamos em um grupo de 08 pessoas, pedalamos sentido sul e pegamos a saída que indicava Santo Amaro da Imperatriz. Esse começo de caminho é igual ao das outras provas de Audax Floripa, é onde está a maior altimetria ( subidas ), também é na minha opinião onde estão as estradas mais tranqüilas, onde estão as Paisagens mais Lindas, onde minha lanterna principal caiu e se quebrou ( PQP ), e onde está o Primeiro PC !

PC, para quem não sabe: Carregamos durante a Prova um Passaporte que jamais deve ser perdido ou danificado, pois ele é Prova máxima de que você executou e cumpriu corretamente todo o trajeto. O Passaporte está para o ciclista randonneur, assim como o Diploma está para o Médico ( ou deveria estar, rs ). Sem Passaporte em dia, sem Homologação. Ao longo dos 1.000 km existem os Pontos de Controle, os PC’s. Eles podem ser Físicos, com pessoas da Organização carimbando e registrando o seu Passaporte, e também podem ser virtuais, um Posto de Gasolina ou Padaria por exemplo, onde você deve comprar algo e guardar o Ticket, que é a sua prova de como passou nesse local naquele determinado momento. Não se preocupe, não há como burlar isso, mas também, se alguém pensar em burlar, está realmente no lugar errado. Normalmente em uma Prova de 200 km existem 04 PC’s, e nessa de 1000 km os PC’s são 15 !

Pois então, lembra daquela história de ir de bicicleta até a Padaria ? Pois então, nosso Primeiro PC era físico e seria na Padaria do Anésio com 63 km pedalados. A essa hora, o Paulo, bastante resfriado e com febre, já começava a ficar um pouco mais atrás do grupo. Parada rápida na Padoca, pão com queijo, guaraná, água e vamos embora em busca do próximo PC.

Casinhas lindas e bem pintadinhas, muros baixinhos, ausência total de grades ou cercas de segurança, jardins muito bem cuidados, paisagens bucólicas, criações de animais, subidas e boa hospitalidade, compreendiam o caminho entre São José e São Pedro de Alcântara. Assim, depois de dar a volta no mapa por essa região serrana, logo estaríamos de volta a Palhoça, São José, rumo ao norte sentido Florianópolis.

De volta a BR-101, de volta ao trânsito intenso, e assim dividíamos o espaço com os muitos carros e caminhões ao longo do perímetro mais urbano daquela localidade, porém no decorrer do trajeto já se podia avistar as também lindas paisagens litorâneas de Santa Catarina, onde o trajeto segue costeando a orla, nos pontos da Rodovia, onde de bicicleta, pode-se apreciar a vista do mar a quase a todo instante.

Paramos em Restaurante na Beira da Estrada para almoçar rapidamente e tirar um pouco as sapatilhas, jogar água na cara porque o tempo estava abafado e se encher de suco de laranja gelado, pois logo estaríamos na rodovia passando por Biguaçu, Porto Belo, e foi justamente em Tijucas, que aconteceu uma das partes mais tristes deste relato: o nosso parceiro Paulo que nos acompanhou tão bem nas outras provas, ardendo em febre e com calafrios, tomou a decisão que ninguém quer tomar em uma Prova como essa, todavia prezando pela saúde, ele se vê forçado a parar por ali. Acionamos nosso parceiro Francisco que estava de carro, e logo o levou ao Hospital local.

De volta a estrada e tristes pelo amigo, seguimos por Itapema, Túnel do Boi ( onde o Edison registrou um vídeo usando a Go Pro ), descemos em direção ao Balneário Camboriú, apertamos um pouco mais o passo ( pedal ), e com 172 km pedalados chegamos ao PC2 na Balsa de Itajaí, onde o ticket da Balsa era nosso registro da passagem, todavia também tiramos fotos para comprovar. ( Lembrando que ticket e foto caracteriza que este é um PC Virtual ).

Seguiríamos costeando o mar sentindo Balneário Penha, e nesse meio tempo o dia anoitecera. Nosso novo destino agora era o PC3 – virtual, e não sei porque cargas d’água, outra Padaria … ( rsrs ) … e com 188 km pedalados e já no início da noite, atingimos a Glória ! A Padaria Glória ! Ô Glória ! Estávamos no mesmo PC do Audax 600 só que desta vez a noite, bem pertinho do Parque Beto Carrero World ( lê-se uordi ), só que chegamos por outro caminho, beirando o mar. Água, pão com queijo e mais água, hora de partir, dali para o próximo PC faltavam 82 km e era onde pretendíamos jantar. Sem perder muito tempo, pois o tempo armava um senhor pé d´água, os raios já riscavam o céu, assim como os trovões esbravejavam. Deixamos a Padaria com esperança de desviar daquele mau tempo, porém, com 1.000 metros percorridos começavam os pingos mais fortes, sendo assim tivemos que fazer uma parada estratégica para vestir as capas de chuva. ( Obrigado Rubbo pelo empréstimo da capa ). Por sorte a chuva não perdurou, nos acompanhou por um trecho e ficou lateral mais na direção do mar, nos restando assim os raios e um vento contra bem desagradável. Com esse tipo de tempo, pedalar torna-se mais arriscado, pois os carros dirigem com pressa de sair do mau tempo, e tem menos visibilidade, por sua vez passam a não nos respeitar tanto como deveriam, é comum eles não nos darem a preferência.

Com as sapatilhas molhadas, os pés começavam a cozinhar. Mais um pouco de pedal e logo chegaríamos novamente a rodovia.

De volta a BR-101 e com o sono começando a chegar, enfrentamos chuva e frio. Nesse momento, Metallica e Iron Maiden eram a trilha sonora perfeita para não me deixar dormir na direção, enquanto eu tapeava a fome com um pacote de Trakinas. Parada para alongar e espantar o sono. Passamos com frio por Barra Velha, e quando chegamos na entrada do Expoville em Joinville, por já conhecer muito bem esse lugar, eu sabia que estávamos a 15 km do PC4 – virtual, e com 270 km de pedal chegávamos ao Posto e Restaurante Rudnick. Espeto corrido ? Ah, quem me dera !

Bom, a essa altura já estávamos a caminho de um Brevet 300 km ( rsrs ), deixando o Rudnick, só precisávamos nos concentrar, e enganar o sono e o cansaço, para chegar no PC5 – físico. A essa altura, o que nos animava era saber que na próxima parada havia cama, chuveiro e sopa, claro que para os que chegassem em tempo de desfrutar desse luxo.

O PC5 era uma Pousada em Itapoá, mas era longe. No caminho enfrentamos uma estrada repleta de caminhões transportando containers, e alguns resolviam dar aquela buzinadaça, acho que era quando o Pakato cochilava e ameaçava invadir a estrada … ( rsrs ) … enquanto isso, numa parada para desapertar a bexiga, encontramos sanguessugas nas pernas do Rodrigo e no calçado do Fabi … foi engraçado … o Rodrigo logo rebateu: Por isso que eu estava me sentido fraco … haha

Na procura desse PC5, vivemos uma das partes mais irritantes da prova. Antes de chegar a essa tal Pousada que na Planilha chama-se XX, e na minha anotação chamava-se Rainha da “ Birosca “ ( esqueci o nome ), tínhamos que tirar uma fotografia comprovando nossa passagem lá do outro lado do “ caramba “ de não sei onde, só que a essa hora, depois de mais de 15 horas, não tem bateria de GPS que aguente ( rsrs ). Melhor rir para não chorar! Tiramos a tal da foto ( vale a pena ver nossas caras na tal foto … haha ), e nos perdemos por 2 horas com fome e cansados, andando pelas ruas de areia de praia, procurando uma Pousada que nenhuma das 02 pessoas que estavam acordadas as 4:00 horas da manhã naquele fim de lugar sabiam onde era.

O Cassiano xingava muito, enquanto outros já cogitavam abandonar a prova. Eu por minha vez, irritado, sem GPS ( não, não sabia ainda o que era “ Power Bank “, mas quando cheguei em casa comprei 02 ) … ( rsrs ) … resolvi então quebrar o taco da minha sapatilha enquanto batia o pé no chão para tirar aquela areia linda e maravilhosa do meu solado … Não lembro nem como, só sei que até o vocalista do Slayer já havia ficado sem voz, quando encontramos a tal da Pousada … infelizmente não fomos os únicos, isso gerou um certo desconforto devido as condições físicas e psicológicas em que nos encontrávamos …

Sopa ! Sopa ! Enquanto alguns ciclistas já desciam para tomar um café da manhã, eu me afogava em pratos de sopa. Essas são sem dúvida, as melhores refeições da vida. Depois disso, consegui tomar uma banho bem ligeiro para então dormir por 1 hora ! Isso mesmo ! Na primeira noite da prova, nós dormimos 1 hora, sendo que nesse mesmo momento, outros ciclistas já se preparavam para seguir viagem. Nem por isso, o dia logo amanheceu, e nós partimos juntos com muitos que estavam entre os primeiros, a única diferença é que eles dormiram mais. O que nos confortava, é que enquanto partíamos, ainda havia gente chegando, porém, todos dentro do tempo de fechamento do PC. ( Ah ! Esqueci de falar, os PC’s tem horário de abertura e fechamento).

( Quero aqui abrir um parênteses para agradecer o Paulo e o Francisco, que nessa parada, me emprestou e trocou o taco quebrado da minha sapatilha ).

O dia amanheceu lindo, de frente para o mar ( quem vê pensa que eu nem moro na praia … ( rsrs ) e agora o destino era o PC6 – virtual, porém, entre um PC e outro, ainda havia um Controle de Passagem na Balsa de Guaratuba com 374 km. Assim seguimos sob o sol ardido por um longo trecho reto que nos levou até a Balsa. Se tem uma coisa que me arrependi foi de não ter comprado logo 01 dúzia de “chup-chups” antes da travessia, pois não sabia que demoraria tanto. Aproveitamos para dar uma relaxada e tirar mais algumas fotos. ( Já havia estado ali em uma de nossas cicloviagens ).

Deixada a Balsa de Guaratuba, seguimos em direção a Paranaguá por Matinhos, Praia de Leste e Pontal do Paraná, desta vez fomos seguidos por um calor escaldante, que nos obrigou a parar em um mercadinho para refrescar. E tome água de côco, castanhas e frutas. Em seguida já estávamos novamente seguindo rumo a BR-277 sentido Curitiba.

A placa dizia: “ Você está deixando as praias do Paraná ”, ou seja, vai esquentar mais ainda e a altimetria vai aumentar. Outra placa indicava 24 km para Morretes, isso significava que o PC6 no Restaurante Roda D´água já estava próximo, e ao avistar os primeiros ciclistas voltando do outro lado da rodovia, pudemos ter essa certeza. No momento não liguei o nome a pessoa, mas o primeiro a passar no caminho de volta lá do outro lado, era um ciclista com aspecto de senhor de idade avançada em uma MTB 29er do pneu largo … ou seria o calor ?! … haha

O PC6 ficava praticamente no começo da subida da Serra do Mar indo para Curitiba, ou seja, Curitiba estava dali a 80 km, e para quem havia largado de Floripa, com 440 km, já estávamos bem longe. Quase todos esses lugares já conhecíamos das nossas cicloviagens, todavia estávamos ali desta vez em condições bem adversas.

Depois do bolo de milho, muita água de côco e pé-de-moleque, era hora de retornar no caminho contrário. Subimos mais dois lances de subida até o retorno, e se o calor esteve judiando na ida ao PC6, agora era a vez do vento contra acabar conosco. Depois que passamos pelo Restaurante Cantinho da Pixirica ( tem uns nomes que valem a pena citar … rs ), começou a anoitecer rapidamente e a chover. Quanto mais nos aproximávamos da Balsa, mais forte os raios e intensa a chuva ficava. Já na Balsa a chuva resolveu dar uma trégua, e assim que desembarcamos, resolvemos parar no primeiro e único lugar que nos deu uma opção de janta. Não era a janta que eu queria, mas era o melhor Xis Calabresa do mundo.

Nosso próximo destino adentrando a noite, era o PC7 – virtual, um Posto de Gasolina da bandeira BR em Garuva, só que antes de chegar até lá, teríamos que enfrentar novamente uma estrada molhada com acostamento estreito e repleta de caminhões transportando containers. O fato desses caminhões passarem nos lambendo em grande velocidade não é o problema, o problema maior mesmo, é o sono que se sente ao pedalar a noite, quando o seu relógio biológico não está acostumado. E olha que nem o S.O.A.D ( banda ) desta vez estava dando conta de espantar a “lombeira” que vem com a escuridão da noite.

Agora, a outra notícia triste fica por conta da desistência dos nossos dois amigos e parceiros de Bento Gonçalves, o Fabi com uma distensão na virilha e o Cassiano com os pés assados e com bolhas causadas pelo calçado molhado. E com 545 km pedalados, no PC7 em Garuva com tristeza nos despedimos de ambos. Nosso grupo agora seguia formado por 05 pessoas e o destino seria o PC8 – virtual em Guaramirim.

E assim seguiu, passamos pela rotatória em Garuva e continuamos enfrentando a noite e o sono. O farol da bicicleta iluminava grandes plantações de arroz. A estrada estava muito tranqüila e com 600 km chegamos ao Posto Bruderthal em Guaramirim. Aproveitei para comer um Cup Nudles, e tirei um cochilo de 20 minutos ali mesmo no chão da oficina com um sorvete corneto enfiado na boca.

Ainda na madrugada seguimos rumo a BR-101 com destino ao PC9 – físico. Chegamos na rodovia em um trecho bem antes de Joinville sentido sul. Teríamos 96 km para pedalar até o próximo PC e seguindo na frente com o Bruce Dickinson gritando no meu ouvido, não notei que me separara do grupo. Como acabara de passar pela marginal de um viaduto, não percebi e não sabia se eles estavam na minha frente ou atrás, resolvi esperar na ligação viaduto/marginal, e nada deles. Para ajudar, era alta madrugada, e o céu resolveu desabar forte. Rapidamente guardei meu radinho, coloquei uma capa de chuva descartável que havia ganhado do Cassiano e resolvi voltar no caminho subindo o viaduto, apostei na hipótese deles estarem atrás. Depois de algum tempo avistei os faróis da turma, e descobri que havia perdido o único furo de pneu da prova, que foi quando uma haste de metal entrou no pneu da bicicleta do Pakato, daí eles terem ficado para trás e nos desencontrarmos.

Nosso próximo destino, o PC9, era exatamente onde também foi um dos PC’s no 600 km, a Pousada Estrela do Atlântico, no Balneário Camboriú. Antes de chegarmos lá, o dia amanheceu, e enquanto a turma deu uma paradinha na SAU do Pedágio para tomar um cafezinho, eu aproveitei para cochilar 10 minutos encostado no alambrado do portão, na chuva. Essa valia uma foto, mas a máquina a prova d´água estava no bolso de quem estava dormindo … ( rsrs ) … seguindo pela BR, passando a loja da Havan, o tempo começou a limpar, e com o dia amanhecido e com 696 km ( um Audax 600 km ) pedalados chegamos finalmente na Pousada.

Lembra que disse que chegamos com o dia amanhecido ? Então não é hora de dormir, certo ?! Até porque eu já tinha dormido 10 minutos no pedágio, que mordomia é essa ?! Meu café da manhã foi sopa, pão, leite, bolo de chocolate e só parei de comer porque não agüentava mais. Fui rapidamente para o quarto, lavei meu capacete que estava todo respingado de lama, também lavei minha sapatilha e minha bermuda, em seguida me vesti e dormi por 40 minutos, e logo estávamos prontos para seguir. Só para localizar: estávamos na manhã do Sábado.

Acabando o relato ? Só que não … ( rsrs ) … E se você achou que depois desse PC iríamos seguir sentido sul, está enganado. Deixamos o PC9 em direção ao PC10 – virtual voltando para o norte da BR-101, onde depois de mais alguns quilômetros, sairíamos mais uma vez da BR pela saída que nos levaria a cidade de Ilhota ( capital nacional da lingerie e moda íntima ), passamos por lá em outra ocasião, só que de madrugada. Desta vez durante o dia, pudemos comprovar que a cidade é realmente um grande centro de vendas de atacado e varejo do artigo em questão, lembrando bem as ruas e lojas do Brás em SP. Mas, deixa o Brás para lá, porque agora era hora de Pânico! Meu GPS travou! Deve ter sido perda de satélite, sei lá. Por sorte, tínhamos por perto o pessoal de Curitiba, o Marco e o Thiago, e nos agrupamos a eles para chegar até o próximo PC. Tinha esperança que o Padilha ( amigo de Curitiba ) resolvesse o problema com o meu aparelho, mas por muita sorte, e depois de alguns bons quilômetros de sufoco, a encrenca voltou a funcionar. Melhor assim. A essa altura eu já usava o Power Bank do Edison, e estava com o do Fabi guardado como step.

Muito calor marcou nossa chegada com 740 km no Posto Padilha em Gaspar. Muita água de côco também, além de um assado de palmito. Pedalando por entre as ruas das cidades e alguns trechos de rodovia, com 768 km e completamente fora da rota que indicava o GPS, chegávamos ao PC11 – virtual no Posto Havan na cidade de Brusque, que nessa época do ano encontrava-se com suas ruas todas enfeitadas por conta da 29ª Fenarreco, e onde o Paulo e o Francisco nos esperavam com os marmitex que seriam nosso almoço.

Enquanto seguíamos mais uma vez rumo a BR-101, anoiteceu mais uma vez, essa já era a terceira noite da empreitada, e com o sono se aproximando, acompanhados da turma de Curitiba, com 805 km pedalados, chegamos ao PC12 no Posto Tigrão. Fizemos mais uma parada rápida, importante e estratégica, pois para chegar ao próximo PC teríamos que enfrentar outra noite, e mal dormidos não seria nada fácil, para isso eu teria que me abastecer bem. Com um Cup Nudles, água de côco e bolacha, já me sentia preparado para os próximos monótonos 80 km na 101.

O fato desse caminho já ser muito conhecido, tornava a noite além de monótona, sonolenta. Certamente foi a noite onde o sono foi realmente o maior vilão. Por algumas vezes cheguei a sonhar no guidão da bike, e acompanhado do amigo Rodrigo, acabamos ficando mais para trás. Durante uma das paradas, enquanto estava dando uma cochilada em pé, bem no meio de uma das subidas, outra dupla de ciclistas encostou, e durante a troca de idéias, resolvi aceitar um comprimido de cafeína oferecido pelo Paulinho, e foi a última vez que senti sono nessa prova. Passados 10 minutos, disparamos no pedal, eu e o Rodrigo, e pelo caminho encontramos a turma de Curitiba, e por muito pouco quase alcançamos o nosso grupo no PC13 com 881 km pedalados no Auto Posto Marquinho em São José, onde aproveitei para cochilar mais 15 minutos. Quando eu digo cochilar, é deitar em qualquer lugar, de qualquer jeito, e simplesmente desligar deste mundo para o mundo dos sonhos.

Faltando apenas 120 km para concluir a prova e ainda dentro do tempo proposto, para mim era praticamente impossível sentir sono. A essa altura reinava a ansiedade. Só faltava a volta na Ilha de Florianópolis. A próxima parte do trajeto consistia em adentrar a Ilha sentido sul até o PC14 – físico e retornar para o norte da Ilha até o PC15 – físico.

Desistir foi a única coisa que jamais passou pela minha cabeça em nenhum momento. Até porque, quando eu vim para a Prova, o Kauan já havia pedido que queria tirar foto com a medalha, e ainda no dia anterior, o Nathan também havia enviado mensagem no meu whatsapp pedindo a mesma coisa: Pai, traz a medalha, eu sei que você consegue … ( nem pensar o contrário ). No único momento em que surgiu a sensação de que o tempo não seria suficiente para nos deixar concluir a prova, foi quando bateu o desespero, e comecei a botar maior pilha na galera e apertar o passo. Como diria Humberto Gessinger: Não vim até para desistir agora. Morrer na praia nem pensar !

Pela primeira vez faríamos o percurso da Ilha sem o Cassiano, sem o GPS do Cassiano, e sem o Fabi. Para quem não é local, o percurso e a Planilha a seguir são realmente muito confusos, e nós não andamos com tempo de sobra para nos perder, e além do mais, de madrugada não se encontra ninguém nas ruas para pedir informações.

Por sorte, grande parte do percurso já estava na cabeça, e conforme avançávamos, íamos relembrando, porém, toda a confiança estava depositada no GPS. Ainda para ajudar, fizemos o primeiro trecho acompanhando o pessoal de Curitiba ( Stefan, Padilha, Marco, Thiago ), seguimos sentido Armação, e logo estávamos no PC14 com 921 km pedalados. Nesse PC faço questão de abrir um parênteses para agradecer o Hamilton Dinarte que prontamente ajudou a resolver o problema na roda traseira da bicicleta do Stefan.

Pouco depois da nossa saída desse PC, nos separamos do grupo de Curitiba, e confiantes passamos a navegar por conta dos nossos meios, desta vez no sentido norte da Ilha, e assim o dia amanhecia, enquanto percorríamos os principais e mais belos pontos turísticos daquela região: Avenida das Rendeiras, Rio Vermelho … Pouco antes do Morro dos Ingleses, alguns do nosso grupo resolveram parar para comer algo. Como o caminhos para esse PC não era tão complicado, e o Rodrigo que havia ficado conhecia parte dele, fiz uma marcação no chão em um dos pontos que achei mais importante e seguimos sentido Canasvieiras onde estava o último, PC15 com 979 km pedalados. Paramos no Posto do PC, tomamos um café da manhã rápido, registramos nossa passagem e partimos para os últimos e mais esperados quilômetros da brincadeira.

No curto trecho de 20 km que compreendia a distância até o local da chegada, encontramos vários outros ciclistas que chegavam conosco. Olhávamos entre nós e caíamos na gargalhada, sabe quando você está muito feliz e rindo a toa ? Pois é. Foi realmente emocionante. Estávamos vivendo um momento muito esperado. O resultado de toda uma dedicação chegava ao fim em forma de alegria e sucesso. Uma sensação de missão e dever cumprido que causava alegria grande.

Pensar que há 03 dias partíamos daquele lugar, e que de bicicleta estivemos na Serra do Mar no Paraná, cruzamos de um estado para o outro, atravessamos dias e noites em cima das bikes, fizemos uma viagem de 1.000 km e ali estávamos prontos para contar esse feito é realmente de tirar o fôlego.

A medida que você se aproxima do objetivo, é inevitável que venha um filme na sua cabeça de tudo e de todas as dificuldades enfrentadas para chegar ali.

Não é só pedalar 1.000 km. É muito mais do que isso. É você sair do seu cotidiano. Sair do seu trabalho, da sua família, dos seus filhos, dos seus amigos. Abrir mão de muitas coisas para se dedicar aos treinos, a saúde, a alimentação. É todo um processo de estabelecer um objetivo, uma meta, manter um foco e determinantemente buscar.

É uma lição de vida, um aprendizado e uma satisfação pessoal sem tamanho para a vida toda.

Marco.

4 Comentários para este Post

  1. awulll Says:

    Puta relato! Não tinha dúvida nenhuma que conseguiria. Parabéns guri!

  2. Luiz Arthur Says:

    Excelente relato, dá pra ter uma boa idéia do percurso. Ri muito da piada da coruja!:)
    Parabéns pela conclusão da prova!

  3. Fábio Says:

    Parabéns pelo relato e também pela conclusão da prova! Muito bem!

  4. Manu Says:

    Não só a força do corpo te fez concluir esse desafio , a sua força mental, a forma como visualiza cada etapa, a superação de cada imprevisto é que te levou ao final. É o que conclui do seu relato. Parabéns Marco !!

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